Nativos da IA: O grande fosso geracional entre os jovens e os adultos na adoção tecnológica

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    28 Jul 2026

A Inteligência Artificial constitui o ecossistema no qual os jovens crescem, aprendem e se relacionam. No entanto, a adoção desta tecnologia está a revelar um dos fossos geracionais mais profundos do nosso tempo: as crianças e os adolescentes têm mais do triplo da probabilidade de ser utilizadores de sistemas de IA do que os seus pais ou cuidadores.

Enquanto até 50% dos menores inquiridos a nível global já a utilizam, pelo menos três em cada quatro pais jamais interagiram com ela. Esta assimetria no conhecimento está a deixar os jovens a navegar sozinhos por um oceano digital cheio de oportunidades, mas também de profundos riscos para a sua identidade e desenvolvimento.

 

Embora os dados globais mostrem uma adoção massiva — estima-se que 13 milhões de crianças nos países inquiridos usam a IA para fazer os seus tpc — a realidade de como os jovens percecionam esta ferramenta é profundamente matizada e varia segundo o contexto.

Por um lado, existe um risco de “descarga cognitiva”, onde os estudantes deixam que a IA pense por eles. Contudo, estudos qualitativos recentes no Reino Unido revelam uma realidade diametralmente oposta e muito mais cautelosa: quando lhes foi dada a opção de usar uma ferramenta de IA generativa para um trabalho escolar, quase três quartos (72,5%) dos alunos decidiram não a usar.

Os jovens não querem perder a sua voz. Muitos argumentam que preferem expressar as suas próprias opiniões e temem perder as suas competências de aprendizagem se dependerem demasiado destas ferramentas. De facto, 44% dos adolescentes considera que fazer com que a IA complete todo o seu trabalho é “cometer fraude”. Esta contraposição demonstra que os jovens não são meros consumidores passivos, mas sim que reclamam responsabilidade e limites claros, sentindo-se muitas vezes desorientados porque apenas 15% afirma ter recebido orientação suficiente nas suas escolas.

Relações sintéticas: A IA como espelho e refúgio emocional

O impacto mais profundo da IA não se está a dar nas salas de aula, mas sim na configuração da identidade e nas relações interpessoais dos adolescentes. A adolescência é a etapa crítica para formar a identidade, tolerar a frustração e aprender a tomar decisões. Hoje, estas decisões estão a ser terceirizadas. Os jovens estão a consultar a IA para decisões profundamente pessoais: o que estudar, se devem continuar ou não num relacionamento, ou como lidar com as suas preocupações.

A nível global, 1 em cada 10 crianças que utiliza IA faz p’ra pedir conselhos sobre coisas que a preocupam. Mas o dado mais marcante e inquietante sobre como a IA está a substituir a conexão humana é que 1 em cada 10 adolescentes nos Estados Unidos utiliza ativamente a IA como namorado ou namorada, e 1 em cada 4 usa-a como amigo. Enquanto os adultos veem a IA como uma ferramenta de eficiência, os jovens estão a criar laços afetivos com “companheiros sintéticos” que simulam empatia e validação constante. O risco é evidente: estas interações sem atrito podem atrofiar o “músculo relacional” dos jovens, afastando-os da vulnerabilidade e do desconforto que a verdadeira conexão humana exige.

 

O perigo do vazio adulto: Riscos sem acompanhamento

Quando os adultos ficam para trás na curva tecnológica, a autoridade e a confiança institucional desestabilizam-se. Os jovens, ao sentirem-se mais competentes tecnologicamente do que os seus pais e educadores, navegam sozinhos por riscos muito graves.

 

O mais alarmante de todos é a exploração. Estimações recentes sugerem que, em apenas um ano, a IA foi utilizada para criar imagens ou vídeos sexuais falsos (deepfakes) de pelo menos 1,2 milhões de crianças em 11 países. Além disso, os próprios menores estão conscientes dos perigos: 34% teme que a IA seja usada para burlar, 32% teme a propagação de informação falsa, e 26% teme a criação de imagens sexuais falsas.

Apesar da fascinação tecnológica, os jovens clamam pelo fator humano. 73% dos estudantes assinala que os seus professores têm competências que a IA nunca poderá substituir, destacando traços vitais como a empatia, o apoio emocional e a compreensão humana.