O desafio da alfabetização digital: da realidade ‘figital’ ao mito do nativo digital

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    22 Jun 2026

As novas gerações não separam o mundo físico do virtual. No entanto, sua imersão tecnológica não garante um uso seguro nem responsável. Diante do auge da Inteligência Artificial e de problemáticas como o ciberbullying, a educação digital desponta como o único escudo possível.

A juventude atual habita em um paradigma completamente diferente do das gerações passadas. Para eles, as fronteiras entre o que acontece em uma praça ou em uma rede social desapareceram por completo. No entanto, estar constantemente conectados não é sinônimo de saber utilizar as ferramentas digitais com critério, uma lacuna que traz grandes desafios para as famílias e educadores em um ambiente tecnológico que avança a um ritmo vertiginoso.

Jovens em um mundo ‘figital’: de consumidores a criadores

Yolanda Rueda, presidente da Fundación Cibervoluntarios, explica que hoje em dia os jovens vivem imersos em uma “realidade figital”, onde misturam o físico e o digital. A vida deles é, por definição, uma realidade conectada na qual os parâmetros das conversas e das relações acontecem em ambos os planos de maneira simultânea.

Para poderem se desenvolver nesse ecossistema, a formação em competências digitais se torna um pilar fundamental. O objetivo principal dessa alfabetização precoce não é outro senão permitir aos jovens passarem de “meros consumidores” a se tornarem “pessoas e agentes ativos na construção do ecossistema digital”.

A prevenção e a proatividade são fundamentais. Quanto mais cedo essa formação for iniciada, melhores serão os resultados, já que os adolescentes se sentem mais seguros e munidos das ferramentas adequadas para navegar de forma ativa. Nesse processo, adverte Rueda, é imprescindível ouvir os jovens e transformá-los em protagonistas, dado que eles constituem a verdadeira base sobre a qual se construirá a “soberanía digital cidadã”.

O fim do “nativo digital” e os riscos da Inteligência Artificial

Contudo, para alcançar essa soberania, é necessário derrubar velhas crenças. Laura Cuesta Cano é categórica a esse respeito: o mito do “nativo digital” acabou. Nascer cercado de telas não confere um conhecimento crítico sobre o seu uso. Essa carência se torna especialmente evidente se observarmos a rápida adoção de novas tecnologias; quase 64% dos adolescentes e jovens entre 16 e 24 anos já utilizam ferramentas de Inteligência Artificial.

Essa irrupção tecnológica contrasta fortemente com a desconexão dos adultos. Segundo dados dos Estados Unidos, 50% dos jovens garantem que seus pais sabem “pouco ou nada” sobre o uso real que eles fazem da IA, e 61% afirmam que seus responsáveis nunca ou quase nunca abordam esse tema com eles.

A falta de orientação adulta e de pensamento crítico gera situações que exigem atitude. Cuesta Cano destaca um dado impactante: 22% dos jovens utilizam chatbots para fazer consultas relacionadas à saúde mental e, o que é mais preocupante, 92,7% consideram que as respostas obtidas são realmente úteis. Essa tendência à confidencialidade artificial se reflete também no fato de que 15% dos adolescentes já usaram a IA para desabafar sobre assuntos pessoais.