A crise silenciosa da saúde mental dos jovens: como aprender a nadar no oceano digital

  • Data
    22 Jun 2026

Os diagnósticos de problemas de saúde mental em jovens registaram um crescimento sem precedentes na última década, coincidindo com o uso descontrolado dos ecrãs. No entanto, os especialistas alertam que a solução não passa pela desconexão total, mas sim por mudar o foco: o problema não é quanto tempo passam ligados, mas sim o que consomem e como o fazem.

A relação das novas gerações com a tecnologia abriu um debate sobre o bem-estar emocional dos adolescentes. Os dados desenham um cenário que exige atenção: os casos diagnosticados de doenças de saúde mental em jovens de 20 anos aumentaram 300% desde o ano de 2012. Esta crise, marcada por sentimentos crescentes de solidão, tristeza e ansiedade, avançou em paralelo ao aumento do tempo de exposição e ao uso descontrolado dos dispositivos digitais.

Um ambiente cheio de riscos que nos impede de refletir

Os números mostram que o impacto desta crise não é igual para todos. O grupo demográfico que mais está a sofrer estas consequências é o das raparigas entre os 11 e os 15 anos. Neste contexto, Alejandro Villena aponta para uma realidade incómoda: como sociedade, não estamos a saber cuidar dos nossos jovens no ambiente online.

O mundo digital atual concentra a grande maioria dos riscos que os menores enfrentam hoje em dia. Villena destaca perigos que vão desde o grooming, o sexting ou o ciberbullying, até ao contacto precoce com a pornografia — que distorce a sua forma de entender a sexualidade —, as adições e a constante comparação social. Tudo isto se enquadra numa forma de entender a vida “rápida e intensa” que afasta os jovens da sua verdadeira essência e os impede de “parar, deter-se e sentar-se a refletir”.

O dilema do tempo: qualidade versus quantidade

Perante este panorama, é fácil cair na diabolização absoluta da tecnologia, especialmente sabendo que 60% dos adolescentes sentem efeitos predominantemente negativos no seu bem-estar e autoestima devido ao uso de plataformas de redes sociais. No entanto, a perspetiva de José Suárez quebra as abordagens mais restritivas e introduz uma nuance fundamental.

Surpreendentemente, alguns estudos demonstram que passar menos de uma hora por dia colado aos ecrãs poderá estar a afetar negativamente a saúde mental dos jovens. Um uso moderado das redes sociais, pelo contrário, liga-nos e pode ser uma ferramenta fulcral para reduzir o isolamento. Portanto, a chave do debate muda de foco: o problema real não é tanto o tempo que os jovens utilizam os ecrãs, mas sim como e o que estão a consumir.

Longe de serem unicamente prejudiciais, as redes sociais também têm efeitos muito positivos. Hoje em dia, estas plataformas tornaram-se uma ferramenta valiosa que permite ajudar a quebrar o estigma contra a saúde mental e facilita que os jovens encontrem “apoio entre pares”.

Para recuperar o controlo e proteger a saúde mental, o primeiro passo é que os jovens aprendam a “escolher bem o que entra nos seus ecrãs”. Suárez recomenda medidas práticas como desativar as notificações ou, inclusivamente, desinstalar aquelas aplicações que nos fazem sentir mal quando estamos a navegar.

Em suma, a solução perante esta crise não é a proibição, mas sim a educação. Como conclui Alejandro Villena, é fundamental cultivar “o senso comum, que é o menos comum dos sentidos hoje em dia”, para dotar as novas gerações das ferramentas necessárias que lhes permitam “aprender a nadar nesse oceano digital”.